Pesquisadores
da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) alertam para os riscos da alta
exposição de crianças às telas de equipamentos eletrônicos, como celular,
computador, televisor e tablets. Na pandemia, essa exposição, que já era alta,
de acordo com eles, aumentou, pois, muitas famílias acabam recorrendo a esses
dispositivos, para conseguirem trabalhar e entreter as crianças, que passam
mais tempo em casa. A situação, que no ano passado, quando o vírus começou a
circular no Brasil, foi vista como passageira, agora é alvo de preocupação.
“A
situação que a gente vive hoje é de uma falta de alternativa muito grande para
os pais que estão em trabalho remoto, muitas vezes sem ajudante em casa, e que
precisam de alternativa para a recreação da criança no momento que precisam
trabalhar ou fazer atividades domésticas. A questão é que o uso da tela se
tornou muito mais que uma alternativa, tornou-se a única via e isso nos
preocupa”, diz a coordenadora do Programa Primeira Infância Plena da UFMG,
Delma Simão.
A
pesquisadora explica que até 1 ano de idade não é recomendada nenhuma exposição
à tela. Depois disso, a indicação varia conforme a faixa etária sendo que, até
os 6 anos de idade, período que corresponde à primeira infância, as crianças
não devem passar mais do que duas horas por dia na frente de dispositivos
eletrônicos. “Quanto mais uma criança fica conectada à tela, mais desconectado
é o cérebro da criança, então mais difícil é para essa criança tomar decisões
adequadas, pertinentes a uma sociedade saudável”, explica a pesquisadora.
Os
prejuízos de uma exposição excessiva às telas, para as crianças, de acordo com
Delma, são muitos. Entre eles: dificuldade de aprendizagem, dificuldade de
interação social, dificuldade de criar vínculo, dificuldade de se adaptar ao
meio social e aos desafios que a sociedade impõe, prejudicando ainda o chamado
controle inibitório que, de forma simplificada, é a habilidade de controlar
respostas impulsivas e esperar a própria vez. No mundo virtual, a criança clica
e recebe o conteúdo instantaneamente, prejudicando o desenvolvimento dessa
habilidade.
No
ano passado, quando a pandemia chegou ao Brasil, segundo o professor da
Faculdade de Educação da UFMG Rogério Correia, os estudos colocavam essa como
uma situação passageira. “Hoje passado mais de um ano, deixou um pouco de ser
passageira essa realidade para nós no Brasil”, diz.
Tanto
Delma quanto Correia experimentam no dia a dia o desafio de afastar crianças
das telas. Ela é mãe do Pedro, de 7 anos, e da Laís, de 3 anos, que tem
trissomia do cromossomo 21 (síndrome de Down). No dia a dia, concilia o cuidado
com as crianças, com a casa e o trabalho. Correia é tio de Fernando, de 3 anos.
“Eu
desenhei no corredor da casa uma amarelinha, para brincar com eles à noite,
para gastar energia. Meia hora que a gente brinca de amarelinha, eu já ensino
comunicação, ensino a esperar a vez do outro, equilíbrio. É no dia a dia que a
gente tem que ser criativo”, conta Delma.
Já
Correia, abriu o quintal para que o sobrinho, que não mora com ele, pudesse
correr. Para isso, a família precisa de uma logística de isolamento, para que
possam se encontrar de forma segura em meio a pandemia. “Estamos sempre
acompanhando [o estágio da pandemia na cidade] se há aumento do índice de
contaminação, e voltamos a aumentar a segurança e o isolamento”, diz.
Segundo
os pesquisadores, será necessária uma atenção especial às crianças não apenas
durante, mas após a pandemia. “A gente acredita em uma pandemia pós pandemia. O
que vai ser das pessoas e especialmente das nossas crianças quando tudo isso
melhorar? Nos preocupa muito a repercussão dessa pandemia”, diz Delma.
Segundo
a pesquisadora, as escolas e outros locais de socialização das crianças
precisarão observá-las de perto, respeitando as necessidades de cada uma delas.
“O olhar precisa ser muito singular para respeitar essa criança que virá depois
desse estresse traumático da pandemia de covid-19. É preciso entender e ser
muito sensível a essas mudanças de comportamento que eventualmente podem surgir
na escola e surgir na família”.
De
acordo com Delma, aqueles que estão participando de aulas remotas devem ser
observados de perto pelas famílias, que devem conversar com as escolas sobre
como está sendo esse processo para eles. “A família precisa estar atenta ao que
está dificultando o processo de aprendizagem da criança para que aquilo não
faça com que a criança perca o desejo de aprender”.
Segundo
Correia, a brincadeira, que acaba sendo substituída por tempo na frente de
dispositivos eletrônicos, é fundamental para o desenvolvimento das crianças e
para ajudá-las a compreender o mundo. “Quando ela lida com um trauma, com a
perda de um ente querido ou mesmo com a distância da mãe que sai para
trabalhar, ela tende a lidar com o que causa essa angústia através da
brincadeira. Na brincadeira, ela toma consciência daquele sentimento”, diz.
O
pesquisador diz que há formas de incluir os conteúdos digitais no brincar e que
isso pode ser benéfico desde que bem orientado. As crianças podem, por exemplo,
levar os personagens do programa de TV para uma brincadeira mais ativa, na qual
entendem o papel daquele personagem e, brincando, têm mais controle sobre a
mensagem e o significado que aquilo traz para ela.
Outra
alternativa é buscar conteúdos digitais que proponham tarefas às crianças e
trocar, segundo Correia, o sofá pelo tapete, onde é possível brincar. “Um
momento em que a criança pode assistir e brincar ao mesmo tempo. As crianças
gostam de assistir a programas que proponham fazer alguma coisa, construir um
brinquedo, isso pode ser legal”. Os pais e responsáveis podem também assistir a
vídeos junto com as crianças, mostrando interesse e discutindo com eles pontos
do programa.
Tanto
Correia quanto Delma recomendam que as crianças sejam integradas nas atividades
do dia a dia dos adultos, que sejam convidadas a cuidar das plantas a preparar
uma comida, a estarem por perto. “Com isso está aprendendo as coisas do mundo,
está aprendendo vocabulário, está aprendendo interação com a família, está
aprendendo a ser útil, a colaborar com a sociedade. A primeira sociedade que
ela vive é dentro de casa”, diz Delma. (ABr)
Sábado,15
de maio, 2021 ás 15:12